A Biblioteca de Nag Hammadi é uma coleção de treze livros antigos (chamados códices) contendo mais de cinqüenta textos, que foi descoberta no Alto Egito, em 1945. Essa descoberta de imensa importância inclui um grande número de Evangelhos Gnósticos primários – textos que antes se acreditava terem sido completamente destruídos durante a luta dos primeiros cristãos para definir a ortodoxia – como o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Filipe e o Evangelho da Verdade. A descoberta e a tradução da Biblioteca de Nag Hammadi, inicialmente concluídas na década de 1970, impulsionaram uma grande reavaliação da História do Cristianismo Primitivo e da natureza do Gnosticismo. Uma dessas obras é Eugnosto, o Bem-Aventurado, um texto Gnóstico-simbólico traduzido por Douglas M. Parrott, que apresentarei a seguir, em forma de fragmentos selecionados, ocasionalmente comentados e, eventualmente, para facilitar a compreensão, didaticamente editados.
Fragmentos da Obra
Todos os homens nascidos desde a fundação do mundo até agora são pó. [Você é pó,
e ao pó voltará. In: Gênesis, III: 19. (Referência ao nosso corpo físico, porque a nossa personalidade-alma é eterna).]A especulação nunca alcançou a Verdade. A ordem unimultiversal é mencionada em três opiniões diferentes, por todos os filósofos, e, por isto, eles não concordam. Alguns dizem que o mundo é dirigido por si mesmo. Outros, que é a providência que o dirige. E outros que é o destino. Estas três vozes não são verdadeiras.
Ainda que habitemos entre os mortais e sejamos mortais, precisamos nos tornar imortais.
Aquele-Que-É é inefável. Nenhum princípio o conheceu, nenhuma autoridade, nenhuma sujeição, nem qualquer criatura desde a fundação do mundo, exceto Ele. Ele é imortal e eterno, não tendo nascimento, pois, tudo e todo aquele que nasce perecerão. Todo aquele que tem um princípio tem um fim. Quem tem um nome é criação de outro. Ele é inominável. Ele não tem forma humana, pois, quem tem forma humana é criação de outro. Ele olha para todos os lados e vê a si mesmo a partir de si mesmo. Ele é ilimitado. Ele é incompreensível. Ele é eternamente imperecível e não tem semelhança com coisa nenhuma. Ele é o bem imutável. Ele é impecável. Ele é eterno. Ele é bendito. Ele é incognoscível, embora, no entanto, conheça a si mesmo. Ele é imensurável. Ele é indetectável. Ele é perfeito, sem defeito algum. Ele é imperecivelmente abençoado. Ele é chamado de Pai do Uni[multi]verso. [Reflita comigo: se Aquele-Que-É é inefável, incompreensível, incognoscível e indetectável – como o próprio autor deste texto gnóstico reconhece e O descreve – como ele pôde fazer todas essas afirmações e estabelecer todas essas adjetivações sobre Aquele-Que-É? Com que autoridade? O fato inconteste é que, gnósticos ou não, todos nós temos uma imensa dificuldade, que chega quase às raias da impossibilidade, de conseguir viver sem depender e sem deixar de acreditar na existência de um Ser Onipoderoso, criador de tudo e de todos nós – às vezes, clemente e perdoador, às vezes, implacável e punidor – o que não deixa de ser uma miralusão (miragem + ilusão) prisional e retrogressiva.]
Tudo o que provém do perecível perecerá, visto que provém do perecível. Tudo o que provém da Imperecibilidade não perecerá, mas, se tornará imperecível, visto que provém da Imperecibilidade. [Aqui também é preciso compreender que, em primeira linha – o ponto de partida, digamos assim – tudo deriva da Imperecibilidade, de O-QUE-É. Nada vem do nada nem se transforma em nada. No Unimultiverso, estas duas coisas são inteiramente impossíveis.]
A fé naquilo que não é visível pode e deve ser encontrada naquilo que é visível. [Aqui, novamente, com humildade, preciso discordar do autor. Penso que fé não adiante nada, não resolva nada e não leve a nada. Agora, confiança, sim, muito trabalho, sim, paciência, sim, e persistência, sim. Eu já relatei que demorei quase 60 anos para compreender Os Rubayat, de Omar Khayyan, mas, acabei compreendendo. Por outro lado, por exemplo, até hoje, não compreendi totalmente as obras de Alice Ann Bailey, A Doutrina Secreta, de Helena Petrovna Blavatsky, nem O Arqueômetro, de Joseph Alexandre Saint-Yves d'Alveydre.]
O Senhor do Uni[multi]verso não é propriamente um 'Pai', mas, sim, um 'Antepassado', pois, o Pai é o princípio (ou Princípio) do que é visível. Ele (o Senhor) é o Antepassado sem princípio.
O Primeiro que apareceu diante do Uni[multi]verso na infinitude é o Pai Autogerado e Autoconstruído, repleto de uma LLuz Brilhante e Inefável. No princípio, Ele decidiu que Sua imagem se tornaria um grande poder. Imediatamente, o princípio (ou Princípio) desta LLuz se manifestou como o Homem Andrógino Imortal. Seu nome masculino é Mente Perfeita Gerada. E seu nome feminino é Sofia, a Geradora Onisciente. Diz-se também que ela se assemelha a seu irmão e consorte. Ela é a verdade incontestável, pois, aqui embaixo, o erro, que coexiste com a Verdade, A contesta.
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Animação Simbólica
Por meio do Homem Imortal – do Homem-Auto-Pai – surgiram as primeiras designações, a saber, a Divindade e o Reino, e, por isto Ele foi chamado de 'Deus dos deuses' e de 'Rei dos reis'.
O Primeiro Homem foi a Fé ('Pistis') para aqueles que vieram depois.
O padrão, entre os imortais, é assim: a mônada vem primeiro, a díade a segue, e, depois, a tríade, até os décimos. Os décimos governam os centésimos, os centésimos governam os milésimos e os milésimos governam as dezenas de milésimos.
Simbolicamente (Até os Décimos)
A Mônada e o Pensamento são as coisas que pertencem ao Homem Imortal. Os pensamentos são para as décadas, os ensinamentos são para as centenas, os conselhos são para os milhares e os poderes são para as dezenas de milhares. No princípio [sem princípio], o Pensamento e os pensamentos surgiram da mente; depois, os ensinamentos surgiram dos pensamentos; os conselhos, dos ensinamentos; e, finalmente, o poder, dos conselhos.
Depois, outro princípio surgiu do Homem Imortal, chamado de 'Gerador Autoperfeito'. Quando recebeu o consentimento de sua consorte, a Grande Sofia, Ele revelou aquele andrógino primogênito, chamado de 'Filho Primogênito de Deus'. Seu aspecto feminino é 'Sofia Primogênita, Mãe do Uni[multi]verso', a quem alguns chamam de 'Amor'.
O Primeiro Pai Gerador é chamado de 'Adão da Luz'.
Então, o Filho do Homem consentiu com Sofia, sua consorte, e revelou uma Grande Luz Andrógina. Seu nome masculino é designado como 'Salvador, Gerador de Todas as Coisas'. Seu nome feminino é designado como 'Sofia, Geradora de Tudo'. Alguns a chamam de 'Pistis' (Fé).
Então, o Salvador, em comum acordo com sua consorte, Pistis Sophia, revelou seis seres espirituais andróginos, que são o tipo daqueles que os precederam. Seus nomes masculinos são: primeiro, 'Não Gerado'; segundo, 'Autogerado'; terceiro, 'Gerador'; quarto, 'Primeiro Gerador'; quinto, 'Todo Gerador'; sexto, 'Arqui-Gerador'. Os nomes femininos são: primeiro, 'Sophia Onisciente'; segundo, 'Sophia Mãe de Todos'; terceiro, 'Sophia Geradora de Todos'; quarto, 'Sophia Primeira Geradora'; quinto, 'Sophia do Amor'; sexto, 'Pistis Sophia'.
Então, surgiram pensamentos nos éons que existem. Dos pensamentos, reflexões; das reflexões, considerações; das considerações, racionalidades; das racionalidades, vontades; das vontades, palavras.
Então, os Doze Poderes entraram em acordo uns com os outros. Seis machos e seis fêmeas foram revelados, de modo que há setenta e dois poderes. Cada um dos setenta e dois revelou cinco poderes espirituais, que juntos formam os trezentos e sessenta poderes. A união de todos eles é a Vontade.
12 ---› 72 ---› 5 ---› 360 ---› VONTADE
Portanto, nosso éon surgiu como o tipo do Homem Imortal. O espaço-tempo surgiu como o tipo do Primeiro Gerador, seu filho. O ano surgiu como o tipo do Salvador. Os doze meses surgiram como o tipo dos doze poderes. Os trezentos e sessenta dias do ano surgiram como os trezentos e sessenta poderes que apareceram do Salvador. Suas horas e momentos surgiram como o tipo dos anjos que vieram dos poderes, que são inumeráveis.
A vida, em todos os éons, sempre provém de uma mulher.
Todos os imortais são provenientes do poder do Homem Imortal e de Sofia, sua consorte, que era chamada de 'Silêncio'.
Um Brevíssimo Cometário Final
No Unimultiverso não há acaso, não há contingência, não há desarmonia, não há a bangu, não há mal feito, não há jeitinho, não há de araque, não há talvez, não há quem sabe... Desde sempre e para sempre, tudo esteve, está e estará hierárquica e quanticamente interligado, entrelaçado, interconectado. Precisamos ter humildade e extirpar, destruir e eliminar definitivamente a vaidade e a separatividade. Nós não sabemos nada.
Música de fundo:
Concierto de Aranjuez - Adagio
Compositor: Joaquín Rodrigo Vidre, Marquês dos Jardins de Aranjuez
Interpretação: Royal Philharmonic OrchestraFonte:
https://www.youtube.com/watch?v=AFvdz2TouYs
Páginas da Internet consultadas:
https://displate.com/displate/8051344
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